Mulheres na Conservação: Beatrice Padovani

mulheres na conservação beatrice padovani

Unindo pescadores e cientistas, a bióloga é pioneira em conservação da vida marinha no Brasil, transformando as pessoas e os lugares que conhece

Por Natasha Olsen disponível em ciclovivo.com.br

“Conservação é você querer continuar a usar as coisas que já usa. Querer que tudo seja usado de forma sustentável, que a nossa geração use os bens e serviços ambientais, mas as futuras também. Isso é conservação. Não é para excluir o ser humano. Não é para dividir. É para unir”. É assim que a professora Beatrice Padovani explica as coisas: de forma simples, fácil de entender e – talvez o mais importante – olhando no olho. “É a compaixão, é sentir o que outro sente. E o conservacionismo é isso, você sente o que o outro sente e vice versa”.

Beatrice é professora, doutora, pesquisadora, bióloga, mãe, mergulhadora, esposa, amiga, e, principalmente, pioneira. Uma mulher que faz aquilo que gosta e que não vai sozinha pelos caminhos que cria. Bia, como é conhecida, sempre valorizou uma boa conversa e foi aprendendo e ensinando ao longo de mais de 30 anos de trabalho pela preservação dos corais e de espécies marinhas ameaçadas, como o emblemático peixe mero.

“A importância dela para a conservação marinha no Brasil é enorme. Ela é uma cientista, é um professora e tem uma facilidade para se comunicar com as pessoas muito grande. Consegue receber e trocar as informações de uma forma muito positiva, muito carismática”, quem garante é Leonardo Messias, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene) de Tamandaré, em Pernambuco.

Foto: Joao Marcos Rosa | NITRO

“Sempre foi assim. Inspira muita confiança. E inspira as pessoas a se juntarem a ela para fazer os trabalhos”, completa Leonardo. A admiração não é a toa. Beatrice chegou à Tamandaré no início dos anos 90 e desde então trabalha no local, desenvolvendo projetos em parceria com pescadores, pescadoras e outros cientistas.

Sua presença foi fundamental para que a comunidade local mudasse sua percepção e atitude em relação à conservação da vida marinha. Francisco de Assis, mais conhecido como Chico da Colônia, testemunhou sua chegada à Tamandaré e hoje é um dos parceiros da bióloga em seus projetos de conservação. Ele conta que Bia fez o primeiro contato com os pescadores locais e foi trocando com eles ideias e conhecimento.

beatrice padovani
Beatrice mergulha na região de Tamandaré.
Foto: João Marcos Rosa | NITRO

Pescadores, uma parceria de vida

A relação de Beatrice com os pescadores começou na faculdade de biologia, no Rio de Janeiro, e se fortaleceu durante o seu mestrado em oceanografia na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), no Rio Grande do Sul. Como ás águas da região não são muito boas para o mergulho, ela passava bastante tempo nos barcos de pesca, conversando com pescadores sobre o que eles sabiam e observavam.

“Aprendi muito cedo que eles conheciam do mar em todos os seus aspectos, desde climatologia, aspectos oceanográficos, padrões sazonais, ciclos da espécies. Então os pescadores sempre foram uma fonte de conhecimento”, garante a bióloga. “Em relação a conservação, os pescadores observam padrões de declínios das espécies, as vezes tem referências que a gente não tem, eles estão ali há muito mais tempo”.

Foto: João Marcos Rosa | NITRO

Muitas das iniciativas e projetos de conservação em Tamandaré nasceram de alertas e conversas com a comunidade pesqueira. A bióloga lembra que o primeiro alerta em relação ao mero veio assim. “O pescador chegou para mim e falou ‘tem uma espécie muito ameaçada aqui que é o mero. Tinha muito mero aqui mas ele é fácil de capturar e diminuiu muito. E hoje a gente quase não vê. Eu acho que é uma peixe que pode desaparecer”.

Essa conversa aconteceu no início dos anos 90. O pescador tinha razão e esta troca foi o ponto de partida para um trabalho que dura até hoje. Beatrice é uma das fundadoras do projeto Meros do Brasil, que desde 2007 trabalha pela conservação da espécie.

Além do trabalho em defesa do mero, ela é professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco, coordena dois projetos em defesa dos corais, o Programa de Estudos Ecológicos de Longa Duração (Peld) e o Reef Check e participa de organizações sociais da comunidade de Tamandaré. “Gosto de todo campo e coordeno mais projetos do que gostaria. Sou uma pessoa entusiasta, mas sou gregária”, avalia.

beatrice padovani
Beatrice e o instrutor de mergulho Maxi Glegiston analisam
em uma carta náutica os pontos de naufrágio da região.
Foto: João Marcos Rosa | NITRO

Mulheres na conservação

O entusiasmo e a habilidade de engajar pessoas são realmente características marcantes e sempre lembradas. Mas a questão do gênero, até pouco tempo não era vista como importante. “Por muito tempo não havia percebido o quanto isso fazia diferença. E hoje vejo. Mas quando estava começando não liguei. Porque estava fazendo as coisas. Sempre achei muito difícil alguém me dizer que eu não podia fazer alguma coisa. Nunca acreditei nisso”.

Beatrice na costa de corais de Tamandaré, na Zona Fechada de recuperação.
Foto: Joao Marcos Rosa | NITRO

Para ela, o fato de ser mulher pode estar relacionado a uma preocupação maior com os outros, com as futuras gerações, “com o que vamos deixar para nossos filhos, sobrinhos, netos”.  

Beatrice é casada com o oceanólogo Mauro Maida, que também é um profissional muito conceituado na área. Com a leveza de sempre,  conta que algumas vezes a sociedade olhava para ela como um complemento do marido. “Minha própria família era machista, mas eu tirei de letra”, conta ela. “Ele nunca me viu assim, e  eu também não me via assim. Então fui fazendo o que eu queria”.

Entre os seus feitos está o apoio à comunidade pesqueira por melhores condições de trabalho e de vida. Chico da Colônia lembra que, quando chegou em Pernambuco, Bia procurou os pescadores locais e conversou com eles sobre a importância de se preservar o ambiente marinho, para que todos pudessem continuar pescando e tirando seu sustento do mar.

Quando ela e o marido chegaram a Tamandaré, havia muita pesca predatória, com bomba, e o trabalho de conscientização foi lento, mas eficaz. A colônia de pescadores foi fundada em 1996 e hoje conta com 450 sócios.

“É um trabalho de formiguinha, vamos multiplicando, falando da pesca com consciência e tudo isso nasceu de Bia. Agradecemos sempre a Deus primeiro e segundo à Bia e ao Mauro. Os pais do desenvolvimento social da pesca”, relata Chico.

Outras mulheres também ganharam espaço neste cenário. No início, elas eram minoria, cerca de 6 marisqueiras entre as 45 pessoas que fundaram a colônia. Hoje a colônia tem cerca de 450 sócios e é presidida por uma mulher. “Tem muito pescador que não dá bola para aos direitos de classe. Mas as mulheres  acreditam vão à luta. As mulheres aqui puderam mostrar que tem essa potencialidade”, afirma o pescador. “Tanto homem quanto mulher podem fazer o trabalho. Basta ter pulso, coragem e garra”.

Para Beatrice a representatividade também é importante e ser uma mulher na conservação passa por este aspecto. “Talvez seja também um olhar de proximidade para as mulheres que estão ai, pescadoras nos manguezais, em áreas costeiras,  que estão sofrendo  os impactos e muitas vezes não são bem enxergadas nos projetos de conservação ou até na políticas publicas”, reflete.

beatrice padovani
Depois de mergulho em apneia, Beatrice retorna à jangada.
Foto: João Marcos Rosa | NITRO

O que ainda pode ser feito?

Como outros conservacionistas, Beatrice se questiona sobre o alcance do trabalho que desenvolve. Infelizmente, muitas espécies entram em extinção, independente de dedicação ou esforço. Ela relembra que quando começou viveu o auge da exploração da pesca marinha, nos anos 80. A possibilidade de intervir era pequena.

Quando viajou para Austrália, um país que já possuía um histórico significativo em conservação, viu de perto que era possível mudar alguns cenários. Lá, trabalhou na grande barreira de corais, com Garry Russel, referência na área.

Voltou para o Brasil e se fixou em Tamandaré, onde começou um trabalho de proteção dos corais praticamente do zero. “Tive uma oportunidade junto com o Mauro e outros colegas de fazer parte do início desta discussão. Um solo fértil tanto com a comunidade quanto com os órgão ambientais”.

Foto: Joao Marcos Rosa / NITRO

Não foi um trabalho fácil. Leonardo, do Cepene, lembra que quando começaram, o cenário era alarmante. “Foi feito um estudo e ele indicou que o ambiente estava muito impactado pela pesca, turismo, atividade náutica. As pessoas chegavam a fazer churrasco em cima do recife”, diz ele.

A primeira medida foi restringir o acesso a algumas áreas para que o meio ambiente pudesse se recuperar. Houve resistência, mas os resultados apareceram e a própria comunidade reconheceu os benefícios desta medida.

Os pescadores identificaram que próximo às áreas protegidas, o volume de peixes era maior e respeitavam os limites impostos. Hoje a conservação faz parte das preocupações da comunidade, que vive da pesca e do turismo.

Os recifes de coral são ambientes de alta biodiversidade que
servem como abrigo para muitas espécies marinhas.
Foto: João Marcos Rosa / NITRO

Ensinar e aprender sempre

O monitoramento da área é feito por Beatrice com a participação de pescadores e jangadeiros. Mas estes não são os seus únicos parceiros. Ela também é professora e descobriu na atividade uma espécie de fonte da juventude. “Como professor a sua juventude se prorroga através dos cérebros alheios”, brinca.

Desde 1995, a bióloga dá aulas de graduação e pós-graduação e também participa de pesquisas no comando de um laboratório onde estuda o ciclo de vida de peixes com seus alunos.

Neste ensinar e aprender que criou com os alunos, pescadores e com quem convive, Bia passa uma mensagem importante de que é possível seguir fazendo a diferença. “Ser um mulher na conservação é não acreditar quando te disserem que as coisas não são possíveis.  É não levar um não para casa e insistir sempre. É ter muito amor pelo que faz e pensar sempre no futuro na humanidade como um todo”.

Foto: João Marcos Rosa | NITRO

Para saber mais sobre o trabalho de Beatrice e sua história na conservação, acesse a reportagem de Paulina Chamorro para o projeto Mulheres na Conservação na National Geographic e ouça o podcast.

Confira também o episódio da web série Mulheres na Conservação, da Fundação Toyota do Brasil, com Neiva Guedes.

Sobre Hidrosuprimentos

A HIDROSUPRIMENTOS é uma empresa brasileira que produz desde 1997 tecnologias, equipamentos e acessórios para toda a cadeia de Gerenciamento de Áreas Contaminadas. HIDROSUPRIMENTOS. Tecnologia a serviço do meio ambiente.
Esta entrada foi publicada em Ambiente. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta