Maior estiagem desde 2006 esvazia lagoa em aquífero de Ribeirão Preto

Joel Silva/Folhapress
RIBEIRAO PRETO, SP,BRASIL- 10-09-2017 : Criancas brincam em area de recarga do Aquifero Garani, na periferia de Ribeirao Preto, que esta quase seco. O local e um importtante ponto de recarga de um dos maiores lencois freaticos do mundo. ( Foto: Joel Silva/Folhapress ) ***COTIDIANO *** ( ***EXCLUSIVO FOLHA***)
Aquífero Guarani, em Ribeirão Preto (SP); o manancial abastece toda a cidade e sofre com a estiagem

 

FERNANDA TESTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE RIBEIRÃO PRETO (SP)

“O solo rachado lembra muito o sertão nordestino no auge da seca. A imagem, no entanto, é de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Diante da maior estiagem desde 2006, a região viu a seca esvaziar uma lagoa situada em área de recarga do aquífero Guarani, um dos maiores mananciais de água doce subterrânea do mundo.

Desde junho, a cidade teve só seis dias de chuva, segundo o centro de informações agrometeorológicas. Há 11 anos, foram cinco dias de chuva de junho a setembro.

Com isso, trechos antes submersos da lagoa hoje são rotas de pedestres na zona leste do município. O cenário é mais um dos problemas envolvendo a área de 65 km² naquela região da cidade, que sofre também com poluição e especulação imobiliária, graves ameaças ao aquífero.

Um estudo de 2012 apontou que, nos últimos 80 anos, o nível do manancial subterrâneo em Ribeirão Preto foi reduzido em 70 metros.

REBAIXAMENTO

A situação seca da lagoa não condiz necessariamente com o rebaixamento do nível do aquífero, segundo Marcelo Pereira de Souza, especialista em política e gestão ambiental da USP de Ribeirão, mas desperta a atenção para os riscos ao manancial.

“São águas do lençol freático, portanto a lagoa seca não afeta o aquífero. O mais importante para a preservação do local é manter a área de recarga infiltrando, uma vez que a água subterrânea tem uma hidrodinâmica diferente da que corre na superfície. Portanto, um grande problema seria a impermeabilização da área, com o avanço imobiliário, por exemplo.”

Para ele, a exploração do aquífero além da capacidade de reposição é outro problema –que levou à redução do nível nas últimas décadas.

“Temos uma superexploração de água, inclusive com perdas na distribuição, e isso, a longo prazo, deve rebaixar [mais] o nível do aquífero no município. Podemos ter problemas de abastecimento em 20 ou 30 anos”, disse. A cidade é totalmente abastecida pelo Guarani e conta com 109 poços artesianos.

Diretor regional do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado), Carlos Eduardo Alencastre concorda que futuramente Ribeirão Preto pode sofrer com o desabastecimento e diz que o descarte ilegal de lixo na área de recarga preocupa.

Segundo ele, há pontos mais isolados, distantes de núcleos habitacionais, utilizados para descarte de materiais de construção, entulhos e até animais mortos.

“A preocupação é que junto a esses materiais possa haver resíduos químicos, tóxicos, que infiltrando no solo podem atingir o aquífero e contaminá-lo a longo prazo. Neste caso, é preciso conscientização da população para evitar esse tipo de descarte.”

Um dos maiores imbróglios que envolvem a área de recarga do aquífero é a expansão urbana da região. Em 2015, a Justiça de Ribeirão Preto, a pedido do Ministério Público, concedeu liminar que congelava a urbanização da área. O Tribunal de Justiça suspendeu a decisão depois de um recurso da prefeitura.

Atualmente, o processo segue em tramitação e aguarda julgamento. De acordo com a promotora do Gaema (Grupo de Atuação Especial do Meio Ambiente) Cláudia Habib Tofano, a área de recarga passou por perícia na última segunda-feira (11), e a expectativa é que a sentença seja proferida até o final deste ano.

“No atual Plano Diretor não existe uma proteção eficaz ao aquífero, por isso a necessidade da judicialização. Esperamos que a ação seja julgada procedente, porque assim temos a garantia efetiva da recarga. As áreas em que pedimos o congelamento já são pouco urbanizadas. Não é uma questão radical. Queremos conciliar o desenvolvimento econômico com a proteção ambiental”, disse.”

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

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